Epidaurus Theatre // a photo and a story

Tuesday, 5 July 2016


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PT
Há pouco tempo recebi um convite para partilhar a história de uma fotografia de um dos meus sítios favoritos. O projecto Vantage Point foi lançado pela Light, uma empresa que aposta numa nova tecnologia de máquinas fotográficas, que combina qualidade e versatilidade acessível a todos.

Longe de ser uma profissional, gosto muito de fotografar, sobretudo quando viajo. É uma forma de registar, recordar, olhar para o que nos rodeia de forma diferente.
A foto que escolhi não é espectacular senão pela localização - não apresenta nenhum ponto de vista muito original, não estudei a luz, a abertura ou a velocidade (foi tirada com uma simples Bridge Panasonic DMC-FZ38, em modo automático), não captura um momento único e nunca antes visto. Mas tem sem dúvida uma história.

O Teatro de Epidauro, na Grécia, é um dos lugares mais belos onde alguma vez estive.
Queria visitá-lo desde que estudei arquitectura grega em História de Arte no Secundário e vê-lo ao vivo não me desiludiu minimamente.
Depois de alguns dias passados em Atenas, alugámos um carro para visitar o resto do continente, com várias paragens até Thessaloniki. Nesse dia partimos de Atenas com destino a Nafplio, uma paragem estratégica onde iríamos passar a noite antes de seguir para Olympia - pelo caminho iríamos visitar o tão esperado Teatro.
Antes ainda da hora de almoço paramos em Korinthos, para espreitar o canal e ver as ruínas. A surpresa chegou depois de almoço, quando chegamos ao carro e vimos que as nossas malas de viagem que achávamos estarem seguras no porta-bagagem tinham sido roubadas. Primeiro sentimos inércia, depois a negação, o pânico, a raiva, o completo desânimo... as coisas de maior valor estavam connosco, mas nas malas ia todo o resto... e ainda nos esperavam vários dias de viagem. Para alguém como eu, que gosta de ter tudo sob controlo e lida mal com imprevistos, isto era um acontecimento capaz de estragar toda a viagem.
Chamamos a polícia, tivemos e perdemos a esperança de encontrar as malas perdidas num canto, gastamos tempo inutilmente, ligamos para o banco, fizemos mentalmente a lista das coisas perdidas, das que eram irrecuperáveis, das que tinham que ser mais ou menos urgentemente substituídas... a inércia, o desânimo, a vontade de vingar-me de todos os gregos que eu não percebia e parecia que estavam a rir-se de mim.

Era já meio da tarde quando nos libertamos decididos a seguir viagem. Um pouco entre o medo da minha reacção, a resignação e o cansaço, o N. sugere: Melhor seguirmos então para Nafplio, não é? Mas eu nem sequer tinha considerado essa hipótese! Tinha ido até ali para ver o Teatro de Epidauro e era isso mesmo que ia fazer - e era melhor apressar-nos que já não devia faltar muito para fechar quando lá chegássemos.

Uma vez lá, sentada num daqueles degraus milenares, a admirar a imensidão que nos rodeava, nada mais me pareceu importante.
Queria tirar 1000 fotografias de vários ângulos, para não esquecer nada, mas do que me lembro melhor é da maravilhosa sensação de estar no degrau do topo, de olhos fechados, a sentir a brisa e o tempo a passar, como se nada mais existisse.

Fiquei surpreendida comigo mesma, mas consegui.
No fim do dia, na companhia de uma garrafa de vinho numa esplanada em Nafplio, já nos ríamos da nossa má sorte que afinal não era assim tão má: afinal de contas só tínhamos perdido uma mala e aquele momento mágico iria durar para sempre.

Com isto aprendi muita coisa: a levar o mínimo indispensável quando viajo, a dar menos valor a coisas materiais que na verdade não o têm, a rir-me de mim própria, a fazer um esforço para não estragar momentos irrepetíveis por coisas que não controlamos e que, se soubermos relativizar, conseguimos ultrapassar (não vou mentir: é um difícil work in progress!).
A leveza de pensar que não tínhamos muito mais para perder e de chegar ao aeroporto com um saco plástico meio vazio foi, na verdade, bastante libertador.

Espero que um dia também tenham a oportunidade de admirar este fantástico lugar! E que as fotos que lá tirarem vos recordem não só uma bela paisagem, mas uma inesquecível história.

EN
Not long ago I received the inspiration to share the story of a photograph of one of my favorite places. The Vantage Point project came from Light, a new camera technology company that aims to combine quality and versatility accessible to all.

Far from being a professional, I really like to photograph, especially when I travel. It's a way to record, remember, look at what surrounds us in a different way.
The photo I chose is only spectacular for its location - it doesn't present a very unique point of view, I didn't study the light, opening or speed (it was taken with a simple Bridge Panasonic DMC-FZ38 in auto mode), or capture something unique and never seen before. But it surely has a story.

Epidaurus Theatre, in Greece, is one of the most beautiful places I have ever been.
I wanted to visit it since I studied Greek architecture in Art History in Secondary school and seeing it live didn't disappoint me at all.
After a few days spent in Athens, we rented a car to visit the rest of the continent, with several stops up to Thessaloniki. That day we departed from Athens with destiny to Nafplio, a strategic stop where we would spend the night before heading to Olympia - on the way we were going to visit the long-awaited Theater.
Before lunch time we stopped at Korinthos, to have a look at the channel and the ruins. The surprise came after lunch, when we got to the car and saw that our suitcases we thought were safe in the trunk had been stolen. First came inertia, then denial, panic, anger, complete discouragement... the most valuable things were with us, but in the bags was everything else... and we still had several days on our trip ahead. For someone like me, who likes to have everything under control and deal badly with the unforeseen, this was an event that could ruin the whole trip.
We called the police, we had and lost hope to find the bags lost in a corner, spent time uselessly, we called the bank, mentally made a list of things lost, of those that were unrecoverable, of those that had to be more or less urgently replaced... inertia, discouragement, the will to take revenge of all the Greeks I didn't understand and seemed to be laughing at me.

It was already midafternoon when we were liberated and decided to move on. Somewhere between the fear of my reaction, resignation and tiredness, N. suggests: We'd better follow to Nafplio, right? But I hadn't even considered that hypothesis! I had come here to see Epidaurus Theater and that was I was going to do - and we'd better hurry because it wouldn't be long to closing time when we got there.

Once there, sitting in one of those ancient steps admiring the immensity around us, nothing else seemed important.
I wanted to take 1000 photographs from various angles, so I wouldn't forget anything, but what I remember best is the wonderful feeling of being on the step on top, with my eyes closed, feeling the breeze and the time passing by, as if nothing else existed.

I was surprised myself, but I did it.
At the end of the day, in the company of a bottle of wine on a terrace in Nafplio, we laughed at our bad luck that after all wasn't so bad: we only had lost a suitcase but that magical moment would last forever.

With this I learned a lot: to take the bare minimum when traveling, to give less value to material things that aren't actually worth that much, to laugh at myself, to make an effort not to spoil unrepeatable moments for things that are beyond our control and that if we are able to relativize, we can overcome (I won't lie: it's a hard work in progress!).
The lightness of thinking that we had not much to lose and get to the airport with a plastic bag half empty was actually quite liberating.

I hope one day you also have the opportunity to admire this fantastic place! And that the photos taken there record not only a beautiful landscape but an unforgettable story.

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