Para Onde Vão os Guarda-Chuvas // Afonso Cruz

Tuesday, 14 July 2015



Tal como Elahi, Isa temia que a felicidade fosse apenas a maneira que o universo tem de nos fazer sofrer, um método atroz que faz com que experimentemos a saciedade e uma espécie de alegria, para depois nos retirar isso tudo, nos puxar o tapete e nos levar a uma infelicidade de efeito mais profundo. A melhor maneira de fazer uma pessoa cair é levá-la para um lugar alto, o universo sabe fazer isso muito bem, sabe levar-nos para cima das coisas para melhor nos empurrar. Não se empurra uma pessoa que está no chão, é preciso ampará-la primeiro, é preciso fazê-la subir umas escadas. É preciso que a pessoa sinta vertigens. É preciso que caia de muito alto. É assim que o universo ri.

Afonso Cruz, Para Onde Vão os Guarda-Chuvas, p 472

PT
Foi um pouco por acaso que me cruzei com Afonso Cruz na Feira do Livro do Porto no ano passado, mas na altura não resisti a pedir-lhe para autografar este Para Onde Vão os Guarda-Chuvas, que terminei de ler há pouco. A compra foi por impulso, mas algo me dizia que não iria arrepender-me.

É mais um delicioso livro de pequenos tesouros. Um livro que fala de dor, perda, violência, pobreza e morte,  mas também de poesia, da beleza das pequenas coisas que fazem os nossos dias valer a pena.
Um livro que nos deixa de coração apertado, a pensar na inevitabilidade da perda e na difícil possibilidade de redenção em que todos queremos acreditar.
Um livro que nos faz pensar que somos tão pequenos, mas no fundo não somos assim tão diferentes uns dos outros - mesmo quando só vemos as diferenças - que a religião pode ser universal, mesmo que seja tantas vezes motivo de discórdia e incompreensão, que é possível que dentro de cada um de nós exista um universo maior do que o que (des)conhecemos cá fora.

Este equilíbrio absurdamente/moralmente/esteticamente desequilibrado será justo?
Será a perda irremediável?
Poderemos nunca vir a ter respostas, mas questionarmo-nos será sempre uma necessidade.

EN
It was somewhat by chance that I met Afonso Cruz at the Book Fair of Porto last year, but at the time I still couldn't resist asking him to sign this Para Onde Vão os Guarda-Chuvas [Where Do Umbrellas End Up?], I finished reading not long ago. The purchase was on impulse, but something told me I wouldn't regret it.

It's a delightful book of small treasures. A book that speaks of pain, loss, violence, poverty and death, but also of poetry, of the beauty of small things that make our days worthwhile.
A book that leaves us with a heavy heart, thinking about the inevitability of loss and the difficult possibility of redemption in which we all want to believe.
A book that makes us think that we are so small, but deep down we are not so different from each other - even when we only see the differences - that religion may be universal, even if it is often a bone of contention and misunderstanding, that is possible that within each of us there is a larger universe than the one we (un)know outside.

Is this absurdly/morally/aesthetically unbalanced balance fair?
Is loss irreparable?
We may never reach the answers but asking will always be a necessity.

2 comments:

  1. Gostava de "arriscar" alguns autores. Tenho no topo da lista o Gonçalo M Tavares, por referência tua... mas fiquei curiosa com esta tua sugestão

    ReplyDelete
    Replies
    1. Lê este também, quando puderes, mas não deixes de ler Gonçalo M. Tavares (recomendo "Jerusalém" para começar ;), é obrigatório! Já agora depois diz-me o que achaste, podes sempre discordar :D

      Delete

Ana Pina | blog

All rights reserved | Powered by Blogger

^