A Desumanização // Valter Hugo Mãe

Thursday, 23 April 2015



Eu disse-lhe que o meu pai também punha versos no lugar de cada coisa. Ao invés das pedras, ele tinha versos. Tinha versos no caminho. E o sol era uma palavra amarela com outra que faiscava e talvez com crinas de cavalo em dias de maior exuberância. O meu pai, Steindór, põe palavras nas mãos e elas começam a piar e são iguais às andorinhas. Vão embora com elas. Para sempre. Palavras para sempre. Rimos muito. Conversávamos assim e ríamos muito. Algumas palavras, depois, têm outras como filhas. Andam acompanhadas delas e ensinam-lhes a brincar e a serem felizes. Quando passam os bandos a voar, o meu pai diz que é um texto. Diz que o podemos ler.

Valter Hugo Mãe, A Desumanização

PT
A Desumanização, de Valter Hugo Mãe, é uma maravilhosa viagem, não só através do silêncio frio dos fiordes da Islândia, mas sobretudo através de uma muito particular forma de escrever e expressar o que não cabe nas palavras.
A imensidão da tristeza que nos ultrapassa, a incontrolável dor da perda e a necessidade de preencher o vazio (se ao menos fosse possível), o doloroso processo de crescer, a beleza do imaterial que quase se toca, o poder redentor da poesia. A expressão daquilo que nos torna tão humanos, tão expostos e vulneráveis, mas também tão fortes e únicos. O que nos une ao outro e o que nos separa dele, de nós próprios, de quem éramos e que acaba por fazer de nós o que somos.
São palavras que não se sentem apenas, mas se veem. Um turbilhão de emoções, lá fora e cá dentro.

Certamente, um dos livros mais belos que já li.

EN
A Desumanização [The Dehumanization], a book by Valter Hugo Mãe, is a wonderful journey, not only through the cold silence of the fjords of Iceland, but especially through a very particular way to write and express what does not fit in words.
The immensity of sorrow beyond us, the uncontrollable pain of loss and the need to fill the void (if only it were possible), the painful process of growing up, the beauty of immaterial that you can almost touch, the redemptive power of poetry. The expression of what makes us so human, so exposed and vulnerable, but also so strong and unique. What binds us to each other and what separates us from others, from ourselves, from who we were and that ultimately make us what we are.
Words you don't only feel but can see. A whirlwind of emotions, outside and inside.

Certainly one of the most beautiful books I've ever read.

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