Hotel Memória // João Tordo

Wednesday, 18 February 2015


[Detail of Casa Batlló]

Não sei dizer com precisão quanto tempo mantive este ritual, mas penso que deve ter durado dois meses. Dois meses em silêncio, dos quais não guardo outras recordações senão estas, a triste estadia de um homem solitário num poço sem fundo de álcool. Começava a compreender, então, o poder do passado. O passado pode corroer o presente e minar o futuro; é o passado que nos afoga a cara na lama quando já caímos por terra, e que regressa nos momentos mais inesperados para tirar de nós aquilo que já não temos, o sabor das coisas que não tornam a acontecer, porque cada minuto que acontece se perde no precipício ao qual tudo vai, irrevogavelmente, parar.

João Tordo, Hotel Memória

PT
Tento há anos ler regularmente, procurando evitar que todas as obrigações crescentes que nos roubam tempo diariamente me façam abdicar também deste prazer. Intercalo estilos e autores e nem sempre me apetece pegar naquele livro de um autor favorito se o estado de espírito não está em conformidade com o que espero da leitura. Sim, às vezes leio livros apenas para passar tempo, daqueles que não ganham prémios nem somam erudição à lista de leituras... há momentos para tudo. Ainda assim, tento escolher o melhor possível, até porque leio devagar e o tempo não é muito, e nos últimos anos tenho procurado selecionar alguns dos mais recentes autores de língua portuguesa, que muito me têm surpreendido pela positiva, sobretudo Gonçalo M. Tavares, mas também José Luís Peixoto, Valter Hugo Mãe ou João Tordo.

Gostei muito deste Hotel Memória, o segundo livro que li de João Tordo - mais até do que do outro. Em João Tordo o conteúdo e a densidade da trama acaba por ser mais marcante do que a forma como esta é contada - o cenário, os acontecimentos e as personagens acabam por manter-nos envolvidos muito depois da leitura terminar, como se também nós tivéssemos sido incluídos na acção. Li o livro em pouco tempo, mas parece que vivera anos entre as linhas do Hotel Memória e tinha já pena de o deixar.

Um dos aspectos mais interessantes - e que tem vindo a ser recorrente noutros autores desta geração, como curiosamente foi discutido na conversa em que João Tordo esteve presente na última edição da Feira do Livro do Porto - é o facto de este livro aparentar poder ter sido escrito, tanto por um autor português, como de outra nacionalidade - e não digo isto por achar que a identidade nacional se está a perder de algum modo, mas sim, porque os autores portugueses estão cada vez mais internacionais/globais, quer pelas suas vivências, quer pelas suas abordagens e sem que isso os faça esquecer as suas origens (não acho, de todo, que a relação tenha que ser directa).

A memória, essa, irá continuar a deixar-me dividida entre o prazer de recordar e a nostalgia de não podermos nunca regressar ao que fomos - nostalgia que muitas vezes é uma enorme e incontrolável tristeza, uma terrível sensação de irremediável perda. Penso que, por muito realizados que nos sintamos no presente, a maior dificuldade de envelhecer é mesmo essa.

EN
I've been trying to read regularly for years, trying to avoid that all the growing daily obligations that steal us time make me give up of this pleasure too. I diversify in styles and authors, and I don't always feel like picking up that book by a favorite author if the mood is not in line with what I expect of the reading. Yes, sometimes I read books just to pass time, those that don't win awards or add any sense of erudition to the reading list... there is space for everything. Still, I try to choose the best possible, because I read slowly and time is not much. In recent years I've sought to select some of the most recent authors of Portuguese language and I've been positively surprised, especially by Gonçalo M. Tavares, but also José Luís Peixoto, Valter Hugo Mãe or João Tordo.

I really enjoyed this Hotel Memória [Memory Hotel], the second book I read by João Tordo - even more than the other one. In João Tordo the content and the density of the plot turns out to be more prominent than the way it is told - the scenery, the events and the characters keep us involved long after the reading is finished, as if we too had been included in the action. I read the book in a short time, but it seems that I lived years between the lines of Memory Hotel and was already feeling sorry to let go.

One of the most interesting aspects - and that has been recurring in other authors of this generation, as curiously was discussed in the conversation in which João Tordo was present in the latest edition of the Book Fair of Porto - is the fact that this book appears to may have been written, either by a Portuguese author, as by one of another nationality - and I don't say this because I think that national identity is being lost in some way, but because Portuguese authors are becoming increasingly international/global, either by their experiences as by their approach, but without making them forget their origins (I don't think the relation must be direct).

When it comes to memory, it will continue to let me torn between the pleasure of remembering and the nostalgia of knowing that we won't ever return to what we were - a nostalgia that is often a huge and uncontrollable sadness, a terrible sense of irretrievable loss. I think, as much as we may feel accomplished in the present, this is definitely the greatest difficulty of aging.

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