A Máquina de Joseph Walser // Gonçalo M. Tavares

Monday, 12 January 2015



Agir com um sentido importante era a normalidade do tempo de guerra e a preguiça era o seu oposto. Ver alguém a não fazer nada e a não querer fazer nada, causaria tanta estranheza e, provavelmente, tanto repúdio como ver em pleno jardim, na Primavera, um louco a repetir movimentos bruscos e acelerados: arrancando flores com violência, pisando canteiros, abrindo buracos na terra com os dedos. Em tempos de grande intensidade alguém que não soubesse para onde caminhava ou para que fazia aquilo que fazia, estaria louco, pois estaria abstraído dos acontecimentos. Afundar-se no mundo abstracto em período de guerra - momento absoluto do concreto, da matéria e das forças que chocam e combatem - era o mais violento dos actos. Talvez mesmo o mais imoral.
Klober, aliás, fizera já esta pergunta a Walser: o que é mais imoral nestes tempos: matar ou aprender geometria? E Walser nunca lhe soubera responder.

Gonçalo M. Tavares, A Máquina de Joseph Walser

PT
Provavelmente já tiveram a sensação de se sentirem inúteis por acharem não estar a fazer nada. Provavelmente já se vingaram de dias mais cansativos não fazendo coisa nenhuma - e não faz mal.
Tempos adversos podem alterar a nossa percepção da realidade, mas rapidamente voltamos ao estado de inércia natural quando os bons ventos trazem a prosperidade de volta. Talvez sejam as dificuldades que nos fazem crescer e inventar novos modos de avançar. Talvez a calma de uma época de paz nos faça esquecer a força que temos quando dela precisamos. Mas parecermos ocupados não é exactamente o mesmo que fazermos alguma coisa (útil) e talvez por isso mesmo a felicidade e o descanso nunca sejam completos. Talvez por isso a inquietação cresça sem precisar de água no peito dos mais insatisfeitos, mesmo em tempos em que a paz e a riqueza abundam.
A qualquer momento, as coisas inúteis que fazemos para nós próprios sem ideia de proveito revelarão a sua utilidade [Marguerite Yourcenar, Memórias de AdrianoCaderno de Notas].

Impossível ler Gonçalo M. Tavares sem ficar com a sensação de termos levado um encontrão - daqueles que nos deixam de boca e olhos abertos.

EN
[After reading Joseph Walser's Machine, by Gonçalo M. Tavares.]

You probably already had the sensation of feeling useless because you're not doing anything. You probably took revenge of more weary days by doing nothing at all - and that's ok.
Adverse times can change our perception of reality, but we quickly return to the natural state of inertia when the good winds bring prosperity back. Maybe it's the difficulties that make us grow and invent new ways to advance. Perhaps the calm of a time of peace makes us forget the strength we have when we need it. But to seem busy is not exactly the same as doing something (useful) and perhaps for that the feelings of happiness and peace are never complete. Maybe that's why disquiet grows without need of water in the heart of the most dissatisfied, even in times when peace and wealth abound.
In time, the useless things we do for ourselves without idea of benefit will reveal its usefulness [Marguerite Yourcenar, Memoirs of Hadrian, Carnet de Note].

Impossible to read Gonçalo M. Tavares without getting the feeling of having taken a push - one of those that leave us with the mouth and eyes open.

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