O Bom Inverno // João Tordo

Tuesday, 25 November 2014


1. Baiona

O meu esforço foi tão grande que as lágrimas de dor rapidamente se transformaram num riso de escárnio, e ri-me da minha figura trôpega a meio de um temporal, e ri-me de raiva, e ri-me do suor que me jorrava pelas têmporas, e ri-me do mundo e do que estava para lá do mundo, e ri-me dos deuses que pareciam zombar da minha lentidão. O Inverno chegara, afinal; e era um Inverno de dilúvio, um Inverno de morte, um Inverno de culpa. Era um Inverno convocado por uma confissão e, contudo, mais do que vergonha pela minha mentira - pelo opróbrio de uma condenação -, aquilo que sentia era perplexidade, porque a minha confissão havia, no fundo, sido a confissão de um verdadeiro escritor - o tal cobarde e o tal mentiroso que, por vezes, embora muito raramente, era também corajoso; havia sido a confissão de quem se refugiava numa mentira possível em substituição da realidade impossível.

João Tordo, O Bom Inverno

PT
Há já algum tempo que estava curiosa para ler João Tordo, tal como irei, provavelmente, querer ler cada um dos vencedores do Prémio Literário José Saramago (já lá vão quatro), mas foi um pouco por acaso que peguei neste O Bom Inverno e o levei comigo de férias.

Devorei-o em poucos dias e estou certa de que não terá sido apenas porque os dias de praia me deram pouco o que fazer. O enredo tem um pouco de tudo para nos prender: romance, policial, humor, mistério, terras distantes, personagens e diálogos fortes, um narrador que merece pena e admiração, um enredo cinematográfico que surpreende em catadupa (não se deixem levar pelo aparente marasmo dos primeiros capítulos).
Imaginava-me a ver um filme, daqueles que não sabemos bem como vai acabar e a dada altura, sem conseguir tirar os olhos empolgados do ecrã, já não sabemos bem se queremos saber como acaba, com medo que o entusiasmo crescente termine em desilusão. Mas não, nada disso acontece, pelo menos para mim: a surpresa e o mistério mantêm-se, como se mantém a vontade de ler mais, de saber que narrativa poderá trazer a seguir João Tordo para povoar a nossa mente inquieta, sempre com mais vontade de colocar questões do que vê-las respondidas.

Já a pensar no livro do autor que irei ler a seguir.

EN
For some time I was curious to read João Tordo, as I'll probably want to read each of the winners of the Literary Prize José Saramago (read four so far), but was a little by accident that I bought and took this O Bom Inverno [The Good Winter] with me on vacation.

I devoured it in a few days and I'm sure it wasn't only because beach days gave me little to do. The plot has a bit of everything to hold us: romance, thriller, humor, mystery, distant lands, strong characters and dialogues, a narrator who deserves pity and admiration, a cinematic story that surprises in cascade (don't be mislead by the apparent apathy of the first chapters).
I imagined myself watching a movie, those you can't imagine how will end and at some point, unable to take the excited eyes of the screen, you're not sure you want to know how it ends, afraid that the growing enthusiasm ends in disappointment. But no, none of this happens, at least for me: the surprise and mystery remain, as remains the desire to read more, to know what narrative will bring João Tordo next to fill our restless mind, always more willing to ask questions than to see them answered.

Already thinking about the book by the author I'll read next.

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