Memória de Elefante

Thursday, 11 September 2014

Galicia 08'14

1. Islas Cíes

Não havia comida para bebés em Malange e a nossa filha tornou a Portugal magra e pálida, com a cor amarelada dos brancos de Angola, ferrugenta de febre, um ano a dormir em cama de bordão de palmeira junto das nossas camas de quartel, estava a fazer uma autópsia ao ar livre por via do cheiro quando me chamaram porque desmaiaras, encontrei-te exausta numa cadeira feita de tábuas de barrica, fechei a porta, acocorei-me a chorar ao pé de ti repetindo Até ao fim do mundo, até ao fim do mundo, certo da certeza de que nada nos podia separar, como uma onda para a praia na tua direcção vai o meu corpo, exclamou o Neruda e era assim connosco, e é assim comigo só que não sou capaz de to dizer ou digo-to se não estás, digo-to sozinho tonto do amor que te tenho, demais nos ferimos, nos magoámos, nos tentámos matar dento de cada um, e apesar disso, subterrânea e imensa, a onda continua e como para a praia na tua direcção o trigo do meu corpo se inclina, espigas de dedos que te buscam, tentam tocar-te, se prendem na tua pele com força de unhas, as tuas pernas estreitas apertam-me a cintura, subo a escada, bato o trinco, entro, o colchão conhece ainda o jeito do meu sono, penduro a roupa na cadeira, como uma onda para a praia como uma onda para a praia como uma onda para a praia na tua direcção vai o meu corpo.

António Lobo Antunes, Memória de Elefante

PT
Quem já leu António Lobo Antunes terá provavelmente a mesma sensação de dificuldade de transição que eu. Durante as primeiras páginas parecemos estar a ler um outro Português, onde o conceito de metáfora é reinventado e cada palavra é dissecada numa montanha-russa sucessiva de referências e sentidos. É difícil entrar, mas depois da porta aberta um conforto sobressaltado de emoções toma conta do compartimento de onde só parecemos sair enquanto momentaneamente fechamos o livro.

Para além de crónicas dispersas, li há alguns anos Os Cus de Judas, com a certeza de ter tido uma revelação. Tentei dar início à leitura de Ontem não te vi em Babilónia, mas esse continua a meio na mesa de cabeceira... a ele hei-de regressar um dia com novo folego. Com vontade de reler Lobo Antunes decidi-me então pelo primeiro romance do autor, já de 1979, bem mais pequeno, todo ele decorrido ao longo de um dia e noite de uma personagem: Memória de Elefante.
Um complexo cruzar de tempos, espaços e narradores, com uma forte influência autobiográfica marcada pela Guerra Colonial e a dor de um passado com que não se consegue conviver, acaba por estar sempre presente.
Respirar fundo e ler com calma cada palavra, com a certeza de sermos virados do avesso por uma rica e complexa escrita que, mais do que contar uma história, vale por si própria.

António Lobo Antunes poderá não ser para ler em qualquer altura, mas é certamente, mais cedo ou mais tarde, de leitura obrigatória - e para a ele obrigatoriamente regressar de tempos a tempos.

EN
Who ever read António Lobo Antunes will probably feel the same difficulty of transition I do. During the first few pages you seem to be reading another kind of language, where the concept of metaphor is reinvented and every word is dissected in a successive rollercoaster of references and meanings. It's difficult to enter, but as soon as the door opens a startling comfort of emotions takes over the room you only seem to leave while momentarily closing the book. 

Apart from some scattered chronics, I read a few years ago Os Cus Judas (available in English: The Land at the End of the World), with the certainty of having had a revelation. Later I tried to start the reading of Ontem não te vi em Babilónia, but this one is still unfinished and laid on the bedside table... I'll return to it someday with new breath. In the mood to read Lobo Antunes again I decided to choose the first novel by the author, from 1979, much smaller, all of it passed over a day and night of a character: Memória de Elefante
A complex cross of times, spaces and narrators, with a strong autobiographical influence marked by the Portuguese Colonial War and the pain of a past with which one cannot coexist, is ultimately always present. 
Breathe deeply and calmly read every word, with the certainty of being turned upside down by a rich and complex writing that, rather than telling a story, stands on its own. 

António Lobo Antunes may not be an everyday reading, but is certainly, sooner or later, mandatory - as it is to return to it from time to time.

0 comments:

Post a Comment

Ana Pina | blog All rights reserved
© Blog Milk
Powered by Blogger

^