A Vida de Pi

Tuesday, 17 December 2013



[photo: Life of Pi]

Nunca fui uma pessoa religiosa.
Fui baptizada, andei na catequese, fiz a primeira comunhão - tudo porque era aquilo que esperavam que eu fizesse (aquele tipo de coisas que fazemos durante a nossa educação sem ninguém nos perguntar opinião). Chegada ao fim dessa fase, quando me perguntaram, com 12 anos, se queria continuar, disse que não. Para quê? Na minha mente nada daquilo alguma vez tinha feito grande sentido... se a escolha passava a ser minha, a decisão era essa. Faz sentido seguir um caminho ao qual não sentimos pertencer, só porque a maior parte das pessoas à nossa volta parece fazê-lo e espera que o façamos também?

Nunca tive jeito para seguir ordens que não compreendia. Desde que tive idade para questionar, questionei. Se fosse conveniente ou obrigatório por algum motivo cumprir determinada tarefa, cumpria - a minha dificuldade nunca foi aprender ou executar - mas sempre demonstrei uma forte resistência à falta de indignação, à falta de iniciativa ou pensamento próprio, à resignação no geral.
Evito, no entanto, julgar ou converter quem pensa de forma diferente, pelo mesmo motivo que não aceito que o façam comigo. Dificilmente me ouvirão tomar posições radicais em público ou contrariar a vontade do grupo - tal como não me verão seguir o grupo ou ouvirão mentir simplesmente para ser aceite. Em alternativa, sempre preferi ficar sozinha, mesmo que me garantissem que a festa era bem mais divertida do outro lado da porta.
Com o tempo deixei de tentar mudar, embora desiludisse as pessoas que achavam que seria para meu próprio bem... mas descobri que há mais pessoas assim, que não acreditam no que não compreendem, que preferem viver insatisfeitas e indignadas do que escolher o caminho mais fácil - há outra opção, afinal de contas?

Cada um acredita no que quer e inventa o deus que lhe dá a força necessária para continuar. Esse deus não tem que estar num altar nem precisa que saibamos rezas e rituais de cor. Esse deus pode ser um homem como nós.
Há quem pense que quem não acredita em Deus não acredita de todo, mas isso não é verdade - há tantas coisas grandiosas em que acreditar, à nossa volta e dentro de nós.
Podemos conformar-nos com a realidade. Ou podemos transformar esta viagem na mais maravilhosa aventura à face da terra, na história que irão contar sobre nós ou que gostaremos de recordar antes de partir. Podemos ser quem quisermos - pelo menos é bom acreditar que sim.

E vocês, já viram a Vida de Pi?

EN
I was never a religious person.
I was baptized, went to catechesis, made my first communion - all because it was what people expected me to do (the kind of things we do during our education without anyone asking our opinion). At the end of this phase, when I was asked, with 12, if I wanted to continue, I said no. For what? In my mind that never made much sense... if the choice was going to be mine, the decision was that. Does it make sense to follow a path we don't belong to, just because most of people around us seem to do it and expect us to do it too?

I never had a knack for following orders I didn't understand. Since I was old enough  for questioning, I questioned. If it was convenient or required for any reason to fulfill a certain task, I fulfilled - my difficulty was never in learning or executing - but I always demonstrated a strong resistance to the lack of outrage, lack of self initiative or thinking, to resignation in general.
I avoid , however, judging or converting those who think differently, for the same reason that I won't accept they do the same. You'll hardly hear me take radical positions in public or counteract the will of the group - as you won't see me following the group or hear me lie simply to be accepted. In alternative, I always preferred to be alone, even if they guaranteed me that the party was more fun on the other side of the door.
Eventually I stopped trying to change, though it disillusioned people who thought it would be for my own good... but I discovered that there are more people like me, who don't believe what they don't understand, who prefer to live unsatisfied and indignant than choosing the easy way - is there any other choice after all?

People can believe what they want and invent the god who gives them the necessary strength to continue. This god doesn't have to be in an altar or need you to know prayers and rituals by heart. This god can be a man like us.
Some think that those who don't believe in God don't believe at all, but this is not true - there are so many great things to believe in, around and within us.
We can resign ourselves to reality. Or we can turn this journey into the most wonderful adventure in the face of the earth, the story they will tell about us or that we'd like to remember before leaving this world. We can be whoever we want - at least it's nice to think so.

How about you, have you seen Life of Pi?

3 comments:

  1. Olá Ana,

    sim vi a Vida de Pi há largos meses e fiquei com imensa vontade de falar com alguém sobre o filme.

    (comecei a escrever a resposta a este post a meio da tarde :D tornou-se longo demais. agora que jantei, importei-o para o meu blogue. sei que agora é um pouco demodé responder a posts no nosso blogue, com uma citação e um link ao post original. mas o que hei-de fazer. sou um veterano, o meu blogue já fez 10 anos, já tem mofo nos cantos). olha, gosto muito do teu espaço. vou passar com mais tempo e ver o teu trabalho.

    abraço

    aqui está o link para o post:
    http://troblogdita.blogspot.com/2013/12/numeros-irracionais-e-emocoes-precisas.html

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    1. É bom ver que alguém teve, afinal, paciência para ler o meu post.
      É bom também ver-te por aqui, serás sempre bem-vindo :)

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  2. Olá de novo, Ana.
    Finalmente escrevi o texto sobre o filme :D
    http://troblogdita.blogspot.pt/2013/12/spoiler-alert.html

    Teve os seus percalços, com o browser a levar-me o texto, já depois de quase terminado e eu a ter de o reescrever de memória.

    Enfim, há coisas para as quais se tem de lutar muito para que aconteçam.

    Boas festas

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Ana Pina | blog

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