n(um)a obra

Thursday, 13 October 2011

na obra de um amigo (01)
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Como já devem saber (ou talvez não - não é que seja propriamente meu costume falar no assunto), decidi, desde há uns meses para cá, fazer pause à arquitectura e play a uma série de desejos que estavam na gaveta. Depois de tirar um exigente curso de seis anos, de completar um estágio para a Ordem de mais um ano e de trabalhar durante outros cinco num gabinete, é uma decisão difícil (embora saber que no fundo a queria tomar fosse fácil).

Estou numa fase da minha vida em que é complicado recomeçar, abdicar, mudar de hábitos, esquecer compromissos e obrigações, trocar o tem que ser pelo querer. Ao mesmo tempo, sou demasiado nova para conformar-me com uma decisão que irá acompanhar-me pelo resto da (ainda possivelmente longa) vida... há passos que temos que dar. E às vezes, depois de darmos o primeiro, parece quase impossível voltar atrás.

Não digo que a necessidade ou a tolice (não é de todo o meu género, mas às vezes a memória é curta e leva-nos a fazer coisas que tínhamos prometido não repetir) não me leve de novo para trás do monitor do gabinete de arquitectura de alguém, mas neste momento não consigo conceber a ideia de voltar a essa condição tão triste, tão insatisfatória e tão pouco criativa. Se os meus sonhos como os conheço não se concretizarem, continuarei a ter outras alternativas... embora me sinta disponível para realizar projectos de arquitectura - seria ridículo renunciar a tudo o que aprendi durante todos estes anos a estudar e trabalhar nesta área - não consigo aceitar a frustrante pressão de estar integrada num ambiente que não compreendo, onde não me encontro e onde, pior, não me sinto crescer. Talvez a arquitectura me entusiasme mais enquanto disciplina do que enquanto actividade.

O curso que tirei pode não ter sido o mais acertado - talvez soubesse disso já no início... - e teria ido de bom grado para pintura se me tivessem avisado de que a realidade profissional daquele que era supostamente o curso com maior saída da área de artes era assim tão má... mas não é possível voltar atrás - é preciso olhar em frente, descobrir novos caminhos, reinventar ambições.

É certo que nem todos os meus colegas de curso e profissão se sentem assim insatisfeitos em relação à arquitectura - alguns terão um bom emprego, assinam projectos, sentem-se realizados pessoal e profissionalmente, ganham para pagar as contas ou até mesmo para cometer uma extravagância de vez em quando. Não são muitos os que conheço nessa situação, mas também pode ser porque não conheço assim muita gente... quem estou a enganar? O curso foi exigente, mas a realidade é bem pior - exige sem dar quase nada em troca. Praticamente todos os colegas de profissão com a minha idade que conheço estão em situações precárias de emprego, trabalham horas a mais para remunerações a menos, não têm grande perspectiva de evolução na carreira - porque quando se trabalha para outros temos que nos limitar a fazer o que nos mandam - e muitos deles desejam partir para outros e mais animadores cenários. Alguns deles já o fizeram - são ilustradores, professores, donos de restaurantes... mas às vezes tenho medo de não conseguir (re)aprender, de não saber (re)inventar-me.

As fotos que veem no início do post tirei-as numa obra, durante esta semana - a obra não é minha, mas de um amigo, por isso (e talvez ainda bem) as (muitas) dores de cabeça que lhe estão associadas também não.
É um ambiente estranho, o da obra - aqui tem-se a certeza que a arquitectura, de actividade artística, tem muito pouco... o que sobressaem são os fios, os isolamentos, as paredes vazias, as entranhas deixadas à vista, os restos, o lixo, o pó, os erros... ah, e as inevitáveis Super Bock dos trolhas! Sem isso, o ambiente de obra não fica completo. E é nestes momentos de revelação que sinto pelo menos uma certeza: há coisas de que não consigo mesmo sentir saudades.


As you may already know (or maybe not - I don't exactly use to talk about it), I decided, since a few months ago, to pause architecture and play a series of wishes that were in the drawer. After taking a demanding course of six years, completing a one year traineeship to enter the Ordem (the national architects organization) and working in an office for another five, this is a difficult decision.

I'm at a stage of my life when it's hard to start over, to change habits, to forget obligations, to exchange the certain for the uncertain. At the same time, I'm too young to resign myself to a decision that will follow me for the rest of my (still possibly long) life... there are steps that we must take. And sometimes, after giving the first, it seems almost impossible to go back.

I'm not saying that I won't ever be obliged to go back again behind the monitor of someone else's architecture office, but right now I can't conceive the idea of ​​returning to this sad, poor and so little creative condition. If my dreams don't come true as I wish, I'll continue to have other alternatives... Although I'm available to practice architecture - it would be ridiculous to give up everything I learned during all these years studying and working in this area - I can't accept the frustrating pressure of being integrated in an environment that I don't understand, where I don't feel myself grow. Perhaps architecture thrills me more as a discipline than as an activity.

Even though this may not have been the best decision ever (how I wish I had followed painting!), I graduated in architecture - and since we can't go back in time, we must look ahead, discover new paths, reinvent ambitions.

It's true that not all of my fellow colleagues feel so unhappy about architecture - some may have a good job, feel fulfilled personally and professionally, earn to pay the bills or even to commit an extravagance from time to time. But, well, I don't know many in this situation... studying was demanding, but reality is much worse - it demands too much without giving much in return. Too many colleagues at my age that I know are in precarious employment situation, work too many hours for little pay, don't have much prospect of career development and many of them want to change to different and more interesting scenarios. Some of them have already done it - they're illustrators, teachers, restaurant owners... but sometimes I'm afraid I'm not able to (re)learn, to (re)invent me.

I took the photos you see in the beginning of the post at a construction site this week - it's not my authorship, but of a friend - and that's why (perhaps thankfully) the (many) headaches that are associated with it aren't mine either.
This is a strange environment - when we're at a construction site, we have the certainty that architecture has very little of an artistic activity... what stands out are the wires, the empty walls, the trash, the dust, the mistakes... oh, and the inevitable bottles of beer left by the workers! Without them, the work environment is not complete. And at these moments of revelation I'm certain at least of one thing: there are things that I won't ever miss.

7 comments:

  1. Ana, este texto só demonstra que tomaste a opção certa. e tenho certeza que é natural estes primeiros tempos de dúvidas e decisões quanto ao caminho a tomar. é um "mal" necessário.
    tenho certeza que é questionando que encontrarás o teu rumo. o teu espaço.

    quanto à obra, sinto algo diferente. vejo como um local fértil, de onde brotam paredes, espaços, sonhos e sorrisos de quem neles vai habitar e vê assim nascer a sua casa. e um dos meus principais motivos de "queixa" é o estar confinada a um ecrã, quando a arquitectura "nasce em baldes de areia".
    gosto das imagens...

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  2. great and honest decision made ! You only live once and you must do whatever you like the most. The younger you are, the easier the
    changes will be to adjust. Good luck !

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  3. este post podia ser meu:); tu com a Arquitectura, eu com o Direito....; e desses anos que dedicamos a estudar ficam sempre as nossas bases e muitos ensinamentos; mas não podemos nunca abdicar dos nossos sonhos!!!

    por isso, go for it!:) bj

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  4. Olá Ana,

    Já algum tempo que sigo o teu blog, mas nunca cheguei a comentar.
    Ao ler este texto consegui encontrar semelhanças......identifico-me de uma forma, que nem consigo descrever.
    A minha área é o Design Industrial, também tomei a decisão de não continuar, pelo menos nos moldes que são apresentados nos dias de hoje. Não consigo encontrar um fio condutor que me faça querer abraçar está área. O meu percurso ainda está em construção, mas a certeza !! que fiz a escolha certa, tal como tu, nunca desaparecerá.
    Um beijinho muito grande, pela coragem.

    Joana | http://lessformore-ideas.blogspot.com/

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  5. o que será que há na arquitectura q tem tanta gente descontente? talvez o "tanto esforço para isto?". se era o q querias fizeste bem em parar.
    não acho nada q "estejas numa idade em que é mais difícil mudar". isso são ideias q nos tentam enfiar na cabeça. estás SEMPRE em altura de mudar, de arriscar, de desistir, de mudar de ideias, de tentar outra vez.

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  6. sushi lover: obrigada pelo apoio!
    As tuas fotos, palavras e viagens inspiram-me sempre :)

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  7. oh *blush* :)

    posso dizer que same to you :))) - ai que emigra q eu estou

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